quarta-feira, 5 de setembro de 2012

               O sexo e o cérebro não são músculos, nem podem ser. Disso decorrem várias conseqüências importantes, das quais esta não é a menor: não amamos o que queremos, mas o que desejamos, mas o que amamos e que não escolhemos. Como poderíamos escolher nossos desejos ou nossos amores, se só podemos escolher – ainda que entre vários desejos diferentes, entre vários amores diferentes – em função deles? O amor não se comanda e não poderia, em conseqüência, ser um dever. Sua presença num tratado das virtudes torna-se, por conseguinte, problemática? Talvez. Mas devemos dizer também que virtude e dever são duas coisas diferentes (o dever é uma coerção, a virtude, uma liberdade), ambas necessárias, claro, solidárias uma da outra, evidentemente, mas antes complementares, até mesmo simétricas, do que semelhantes ou confundidas. Isso é verdade, parece-me, para qualquer virtude: quanto mais somos generosos, por exemplo, menos a beneficência aparece como dever, isto é, como uma coerção. Mas é verdade a fortiriori para o amor. “O que fazemos por amor sempre se consuma além do bem e do mal”, dizia Nietzsche. Eu não iria tão longe, já que o amor é o próprio bem. Mas além do dever e do proibido, sim, quase sempre, e tanto melhor! O dever é uma coerção (um “jugo”, diz Kant), o dever é uma tristeza, ao passo que o amor é uma espontaneidade alegre. “O que fazemos por coerção”, escreve Kant, “não fazemos por amor.” Isso se inverte: o que fazemos por amor não fazemos por coerção, nem, portanto, por dever. Todos sabemos disso, e sabemos também que algumas de nossas experiências mais evidentemente éticas não têm, por isso, nada a ver com a moral, não porque a contradizem, é claro, mas porque não precisam de suas obrigações. Que mãe alimenta o filho por dever? E há expressão mais atroz do que dever conjugal? Quando o amor existe, quando o desejo existe, para que o dever? Que, no entanto, existe uma virtude conjugal, que existe uma virtude maternal, e no próprio prazer, no próprio amor, não há a menor dúvida! Pode-se dar o peito, pode-se dar a si mesma, pode-se amar, pode-se acariciar, com mais ou menos generosidade, mais ou menos doçura, mais ou menos pureza, mais ou menos fidelidade, mais ou menos prudência, quando necessário, mais ou menos humor, mais ou menos simplicidade, mais ou menos boa-fé, mais ou menos amor… Que outra coisa é alimentar o filho ou fazer amor virtuosamente, isto é, excelentemente? Há uma maneira medíocre, egoísta, odienta às vezes de fazer amor. E há outra, ou várias outras, tantos quantos são os indivíduos e os casais, de fazê-lo bem, o que é bem-fazer, o que é virtude. O amor físico não é mais que um exemplo, que seria tão absurdo superestimar, como muitos fazem hoje em dia, como foi, durante séculos, diabolizar. O amor, se nasce da sexualidade, como quer Freud e como acredito, não poderia reduzir-se a ela, e em todo caso vai muito além de nossos pequenos ou grandes prazeres eróticos. É toda a nossa vida, privada ou pública, familiar ou profissional, que só vale proporcionalmente ao amor que nela pomos ou encontramos. Por que seríamos egoístas, se não amássemos a nós mesmos? Por que trabalharíamos, se não fosse o amor ao dinheiro, ao conforto ou ao trabalho? Por que a filosofia, se não fosse o amor à sabedoria? E, se eu não amasse a filosofia, por que todos estes livros? Por que este, se eu não amasse as virtudes? E por que você o leria, se não compartilhasse algum desses amores? O amor não se comanda, pois é o amor que comanda. 
             Isso também é válido, obviamente, em nossa vida moral ou ética. Só necessitamos de moral em falta de amor, repitamos, e é por isso que temos tanta necessidade de moral! É o amor que comanda, mas o amor faz falta: o amor comanda em sua ausência e por essa própria ausência. É o que o dever exprime ou revela, o dever que só nos constrange a fazer aquilo que o amor, se estivesse presente, bastaria, sem coerção, para suscitar. Como o amor poderia comandar outra coisa que não ele mesmo, que não se comanda, ou outra coisa pelo menos que não o que se assemelha a ele? Só se comanda a ação, e isso diz o essencial: não é o amor que a moral prescreve, é realizar, por dever, essa própria ação que o amor, se estivesse presente, já teria livremente consumado. Máxima do dever: Age como se amasses.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Sou por demais pura para ti ou para alguém.
Teu corpo
Magoa-me como o mundo magoa Deus. Sou uma lanterna -
Não te assombra meu coração. E minha luz.
Eu sou, toda eu, uma enorme camélia
Esbraseada e a ir e vir, em rubros jorros.
Acompanhada de rosas,
Do que venham a ser essas coisas rosadas.
Não tu, nem ele
Não ele, nem ele
(Eu toda a dissolver-me, anágua de puta velha) —
Ao Paraíso.

terça-feira, 10 de abril de 2012

"Você acha que há dois mundos para você, dois caminhos, mas só existe um. O único mundo possível para você é o mundo dos homens, e esse mundo você não pode resolver largar. É um homem."

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Não desejei senão estar ao sol ou à chuva -
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo..

"sapientia: nenhum poder
                 um pouco de saber
                  um máximo de sabor.."

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

"Que outros se jactem das páginas que escreveram; a mim me orgulham as que li."


Bem eu! Hoje enquanto lia sorrindo justamente um livro desse anjinho que nasceu no dia do meu aniversário, tive uma das melhores sacadas dos últimos dias. Não importa essa agonia toda com profissões, em qualquer profissão que eu escolher não estarei impedida de fazer o que mais amo, minha verdadeira profissão: ser leitora. Leitora mesmo. "Só" leitora. Period.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

   "                    O que
                     uma pera
                     realmente
                      sabe da
                         vida
                     é o prazer
                          da
                     mordida.
                                                    "

TRISTEZA
manifesto contra a racionalidade instrumental


Estou triste, 
inexplicavelmente triste.
Triste como o olhar de um cão
triste como o olhar de um cão triste


Estou triste,
inexplicavelmente triste.
Nao sei quanto,
nao se pode medir tristezas.


medimos distancias
medimos tamanhos
medimos montanhas
medimos oceanos


mas, com certeza
não se pode medir tristezas.
Por isso, hoje, ela é em mim
o que há de mais humano.






*do lindo livro do mauro luis iasi, meu eterno arrependimento de não ter comprado nas duas oportunidades que tive.
o nome da obra é meta 
                             amor 
                             fases, 
assim tortinho e bonitinho. e é um dos vários livros legais da mais-que-legal editora Expressão Popular.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

"Em geral, tudo se resolve. Quando não, há sempre o mundo, vasto mundo, a nos oferecer novas rimas e soluções."

sábado, 10 de dezembro de 2011

talvez eu seja a única pessoa que morre de medo de viver nesse mundo em que estamos.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

“Vi minha vida se desenrolar diante de mim como uma figueira de um conto que havia lido. Da ponta de cada ramo, um gordo figo roxo acenava e me seduzia com um futuro maravilhoso. Um figo significava um marido e um lar feliz com filhos, outro era uma poetisa famosa, outro uma professora, outro era Esther Greenwood, a surpreendente editora, outro era a Europa, a África e a América do Sul, outro Constantin e Sócrates e Átila, um bando de amantes com nomes esquisitos e profissões originais, outro ainda era uma campeã olímpica, e acima de todos esses figos havia muitos outros que eu não conseguia entender. Vi-me sentada sob essa figueira, morrendo de fome, só porque não conseguia decidir qual figo escolheria. Queria-os todos, e escolher um siginificava perder o resto. Incapaz de me decidir, os figos começavam a murchar e apodrecer, e um a um caiam no chão a meus pés.”

(Trecho do livro A Redoma de Vidro)

domingo, 2 de outubro de 2011

Tudo é um entre um milhão de caminhos. Portanto, você deve sempre manter em mente que um caminho não é mais do que um caminho; se achar que não deve seguí-lo, não deve permanecer nele, sob nenhuma circunstância. Para ter uma clareza dessas, é preciso levar uma vida disciplinada. Só então você saberá que qualquer caminho não passa de um caminho, e não há afronta, para si nem para os outros, em largá-lo se é isso o que seu coração lhe manda fazer. Mas sua decisão de continuar no caminho ou largá-lo deve ser isenta de medo e ambição. Eu lhe aviso. Olhe bem para cada caminho, e com propósito, Experimente-o tantas vezes quanto achar necessário. Depois, pergunte-se, e só a si, uma coisa. Essa pergunta é uma que só os muitos velhos fazem. Meu benfeitor certa vez me contou a respeito, quando eu era jovem, e meu sangue era forte demais para poder entendê-la. Agora eu a entendo. Dir-lhe-ei qual é: esse caminho tem coração? Todos os caminhos são os mesmos: não conduzem a lugar algum. São caminhos que atravessam o mato, ou que entram no mato. Em minha vida posso dizer que já passei por caminhos, compridos, mas não estou em lugar algum. A pergunta do meu benfeitor agora tem um significado. Esse caminho tem um coração? Se tiver, o caminho é bom; se não tiver, não presta. Ambos os caminhos não conduzem a parte alguma; mas um tem coração e o outro não. Um torna a viagem alegre; enquanto você o seguir, será um com ele. O outro o fará maldizer sua vida. Um o torna forte; o outro o enfraquece. Dom Juan, através do relato de Castañeda em "A Erva do Diabo".

quinta-feira, 29 de setembro de 2011


de tanto não fazer nada
acabo de ser culpado de tudo
esperanças, cheguei

tarde demais como uma lágrima
de tanto fazer tudo
parecer perfeito

você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito

pense um pouco
beba bastante
depois me conte direito

que aconteça o contrário
custe o que custar
deseja
quem quer que seja
tem calendário de tristezas
celebrar
tanto evitar o inevitável

in vino veritas
me parece
verdade

o pau na vida
o vinagre
vinho suave

pense e te pareça
senão eu te invento por toda a eternidade

-paulo leminski.







'pelos caminhos que ando,
um dia vai ser
só não sei quando.'
PAULO LEMINSKI



 rio do mistério
que seria de mim
        se me levassem a sério?



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   Acaba com.
   Começa sem.
  
Não como eu quero. 
  Ou menos.
   Tira daqui, bota dali,
um lugar, não caminho.
     Prossegue de si.
Seguro morreu de velho,
        e sozinho.


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 essa a vida que eu quero,
querida

          encostar na minha
a tua ferida.



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   essa idéia
ninguém me tira
          matéria é mentira


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não fosse isso
e era menos
não fosse tanto
e era quase


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coração
PRA CIMA
escrito embaixo
FRÁGIL



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-que tudo se foda,
disse ela,
    e se fodeu toda


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  Eis que nasce completo
e, ao morrer, morre germe,
       o desejo, analfabeto,
de saber como reger-me,
       ah, saber como me ajeito
para que eu seja quem fui,
       eis o que nasce perfeito
e, ao crescer, diminui.



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vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia


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vazio agudo
ando meio
cheio de tudo



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o barro
toma a forma
que você quiser

você nem sabe
estar fazendo apenas
o que o barro quer


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Como se a gente tivesse
metades que não combinam,
três partes, destempestades,
três vezes ou vezes três,
como se quase, existindo,
só nos faltasse o talvez.


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estrela cadente eu olho
o céu partiu
     para uma carreira solo


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Deve ocorrer em breve
uma brisa que leve
       um jeito de chuva
à última branca de neve.

       Até lá, observe-se
a mais estrita disciplina.
       A sombra máxima
pode vir da luz mínima.



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no fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
    a gente gostaria
de ver nosso problemas
    resolvidos por decreto

    a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
    é considerada nula
e sobre ela -- silêncio perpétuo

    extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
    lá pra trás nã há nada,
e nada mais

    mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
    e aos domingos saem todos passear
o problema, sua senhora
    e outros pequenos probleminhas.



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Apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme.

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isso de querer
ser exatamente aquilo
      que a gente é
ainda vai
      nos levar além





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 você está tão longe
que às vezes penso
       que nem existo


       nem fale em amor
que amor é isto


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atrasos do acaso
cuidados
       que não quero mais

       o que era pra vir
veio tarde
       e essa tarde não sabe
do que o acaso é capaz





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sossegue coração
ainda não é agora
       a confusão prossegue
sonhos a fora

       calma calma
logo mais a gente goza
       perto do osso
a carne é mais gostosa





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como abater uma nuvem a tiros
os poemas incompletos
e o vermelho sempre verde dos sinais


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tá faltando o mais bonito e que sei de cor, o pense e te pareça lindo lindo lindo!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

..dou um passo de medroso, outro de temerário.
Com dois passos e meio fico doido e começo a voltar.
Sei o que não é pra mim. O que é meu não sei direito ainda.

-a.prado.
eu quero amor feinho
amor feinho não olha um pro outro.
uma vez encontrado é igual fé,
não teologiza mais.
amor feinho é bom porque cuida do essencial;
o que brilha nos olhos é o que é.
tudo que não fala, faz.
amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.

-a. prado.